terça-feira, 29 de maio de 2012

Doses de Oscar Wilde

Numa postagem de 2011 eu falei brevemente sobre o livro Nietzsche para estressados, de Allan Percy (Editora Sextante, 2011). Desse mesmo autor, temos agora Oscar Wilde para inquietos.


A proposta é a mesma: 99 frases comentadas para fazer o leitor refletir em seu estilo de vida. Se os estressados podem encontrar em Nietzsche critérios para vencer os ressentimentos e as queixas, os inquietos vão descobrir em Wilde que um pouco de elegância e apego ao momento presente ajudam a manter a calma e apreciar as verdadeiras riquezas da vida.


Oscar Wilde era paradoxal, inconveniente, incoerente, irônico, mordaz e crítico implacável das hipocrisias sociais. Amante da beleza e do prazer, denunciava: sabemos o preço de tudo, mas não sabemos o valor de nada!


De fato, algumas doses de Wilde serão úteis para aqueles que passam o dia preocupados e atarefados com tantas coisas importantes e urgentes, mas esquecem de valorizar a única coisa realmente essencial — estar vivo...

sábado, 26 de maio de 2012

Palavras sumidas sempre reaparecem

Hoje em dia ninguém mais deixa o outro no chinelo, ninguém mais fica jururu, ninguém mais usa japona, ninguém mais mora no cafundó do Judas, ninguém mais é muquirana.


Descobri que ainda uso essas palavras ou pelo menos as reconheço facilmente. Mas não pertencem a este nosso tempo, não frequentam nossas conversas reais ou virtuais. Jururu, muquirana e outras tantas palavras andam sumidas, embora reapareçam vez ou outra.


Reaparecem no Pequeno dicionário brasileiro da língua morta, do jornalista Alberto Villas. A Editora Globo acaba de lançar. O autor explica tudo, tim-tim por tim-tim, e ainda traduz as antigas e mortas pelas novas e saltitantes. É que as noções são as mesmas, mudam os termos.


O pirralho virou moleque. O maioral hoje é o cara. O laquê desapareceu, agora é gel. O que antes era gorar agora é micar. O que era estapafúrdio atualmente é bizarro.


Palavras mortas, ou quase mortas. Sumidas, mas de repente voltam. "Bacana" tinha sumido, e não é que voltou? Este livro é bem bacana, morou?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Errar é autenticamente humano!

Errar não é um episódio esporádico na vida humana. Ao contrário, o ser humano é um ser que se equivoca, é um ser errante, errático, erradio.

Não admitir que erramos ao longo do dia (e todos os dias) é um erro a mais em nosso currículo! Tentar convencer os outros (e a nós mesmos) de que não nos equivocamos constantemente é um novo equívoco!

Somos manipuláveis, falhamos sem perceber (ou sempre temos uma razão que elimina a gravidade de nossas falhas), andamos iludidos até o fim da vida, acreditando, porém, que os outros, sim, estão mergulhados na ignorância, na burrice ou nas más intenções.

Estas frases nasceram de minha leitura de Por que erramos?, de Kathryn Schulz, jornalista e escritora norte-americana. O livro foi publicado em 2011 pela Editora Larousse.

A autora surpreende por seu talento filosófico. Argumenta com segurança, articula informações científicas com fatos históricos, faz o leitor pensar. É uma estudiosa da errologia, ciência (sem pedigree) fundamental para que superemos o perfeccionismo ilusório.

A erróloga Kathryn Schulz
Um trecho (pág. 34) como aperitivo:

Para que o erro nos ajude a ver as coisas de maneira diferente, contudo, temos primeiro de vê-lo de maneira diferente. Esse é o objetivo deste livro: promover uma intimidade com a nossa própria falibilidade, expandir nosso interesse e vocabulário para falar sobre nossos erros e nos determos por algum tempo dentro da normalmente fugaz e efêmera experiência de errar.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Se você quiser xingar alguém...

Não aconselho que as pessoas se insultem, mas se você quiser xingar alguém, então faça com propriedade. Consulte o Dicionário brasileiro de insultos, de Altair Aranha (Ateliê Editorial, 2002).


Eu o comprei faz exatamente dez anos, e garanto sua utilidade. Toda vez que alguém me xinga, vou ver o que o xingador queria dizer exatamente...


Em geral, o mentecapto (estou xingando o xingador de alienado e louco) não sabe a definição correta do xingamento que escolheu e comete uma lamentável imprecisão semântica. E isso é grave. 


Cada insulto deve ser aplicado ao insultado na medida certa.


Chamar alguém de e.t. é dizer que o sujeito é muito estranho, mas chamá-lo de bicho-do-mato é afirmar que se trata de uma pessoa retraída, esquisitona.


O camarada que não sabe insultar revela-se um autêntico desbocado! Um xingamento fajuto não presta, e, se não presta, pode acabar se voltando contra o próprio xingador.


Portanto, sejamos honrados e elegantes: xingar direito é um dever do bom topetudo!



domingo, 15 de abril de 2012

Uma poeta polonesa

Li um poema de Wislawa Szymborska (1923-2012) na ocasião em que esta escritora polonesa ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1996. No ano passado, a Cia. das Letras publicou uma coletânea de seus poemas, com tradução de Regina Przybycien.


A impressão que tive 15 anos atrás se confirmou. A poeta conhece por dentro o drama de termos nascido humanos. Num de seus poemas, bate à porta da pedra. Pede para entrar. A pedra não abre, alegando que está fechada, que não tem portas, que continuará vivendo de costas para a poeta.


Proibida de entrar no mundo da pedra, também não conseguirá entrar no mundo da folha ou da gota d'água. Pior do que estar num beco sem saída é não poder sequer entrar. Recusas experimentamos sempre.


Para ela, há um ou dois poetas em cada grupo de mil pessoas. Dado intuitivo, impossível de contestar ou corroborar. Mas certamente ela é uma poeta.


E vejam este poema:    


                    
As três palavras mais estranhas

                     Quando pronuncio a palavra Futuro,
                     a primeira sílaba já se perde no passado.

                     Quando pronuncio a palavra Silêncio,
                     suprimo-o.

                     Quando pronuncio a palavra Nada,
                     crio algo que não cabe em nenhum não ser.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Um livro animal

A vida de Pi, de Yann Martel (Editora Nova Fronteira, 2010), é um livro animal. No sentido da gíria, porque é um livro fantástico, fora de série, mas também porque trata de animais... e de seres humanos, perigosos animais que somos.


O protagonista é o garoto indiano Piscine Molitor Patel. Seu apelido é Pi, e sua vida gira em torno de religiões e bichos. Pi aprendeu que num jardim zoológico os animais observam os visitantes humanos com tanta ou maior curiosidade do que nós a eles. E não alimenta a ilusão de que javalis, macacos e elefantes, nas jaulas, estejam em situação pior do que na selva, onde predadores, parasitas e outros perigos tornam tão estressante a vida animal.


O livro se torna ainda mais interessante na parte 2, quando, depois de um naufrágio, Pi se vê num bote salva-vidas, no meio do oceano Pacífico, em convivência forçada com uma hiena traiçoeira, uma zebra, uma orangotango e o terrível (e faminto!) tigre de bengala chamado Richard Parker.


É uma aventura mística, afinal, em que se misturam medo e alegria, dúvida e fé, desespero e esperança. O desenlace surpreende.

terça-feira, 20 de março de 2012

As palavras e seu território

Irandé Antunes
Gostei imensamente do título Território das palavras, recente publicação de Irandé Antunes (Parábola, 2012). A autora é nome importante da reflexão linguística no país. Só por isso já valeria a pena comprar seus livros. Mas o título Território das palavras evoca um lugar a ser conhecido... ou invadido. Comprei o livro atraído pelo título. (Depois, vi que essa expressão foi usada por Lya Luft, Nélida Piñón e outros amantes das palavras.)


Na terra dos homens, há o território das palavras. E na vida escolar, as palavras entram e saem. Muitas andam mais quietas (o Novo Acordo Ortográfico foi um choque para todos), outras são barulhentas, violentas, algumas são nojentas, outras correm contra o vento.


Estudar o idioma não é estudar somente, nem prioritariamente, a gramática normativa. A língua se arrasta, pula, faz careta, transforma-se, mente, mexe com nossa mente.


Se nas escolas estudássemos as palavras, invadindo-lhes o território, e tivéssemos com elas um corpo a corpo sem pudor, ao invés de ficar analisando (com bocejos de tédio) orações subordinadas, objetos diretos preposicionados, verbos irregulares...


Se tivéssemos a visão de artistas do verbo, como nas palavras de Graciliano Ramos citadas no livro de Irandé (leiamos abaixo, o texto está nas pgs. 91-2 de Território), nós, professores e alunos, leríamos mais e escreveríamos melhor. E esse "mais" e esse "melhor" não precisariam de exames ou provas para receber aprovação.


E agora, Graciliano: 


Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas penduram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever deveria fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

terça-feira, 13 de março de 2012

Dentro do coração

Coração, na edição
da Cosac Naify, 2011.
Poderíamos brincar com a letra da famosa canção... Livro é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração...


Porque volta e meia retomamos autores ou obras que nos marcaram um dia. Dentre os livros que li no início da adolescência, Coração, de Edmondo de Amicis (1874-1908), estava guardado em lugares secretos da alma, ou da mente, ou do próprio coração.


Cuore, na edição
da Autêntica, 2012.
Guardava da antiga leitura uma sensação de leve sofrimento, de angústia contida perante as dificuldades de alunos italianos num tempo longínquo, dificuldades materiais na Europa do século XIX, dificuldades no relacionamento escolar, a dolorosa comparação entre colegas, porque sempre há os colegas mais ricos, os mais pobres, os mais fortes, os mais fracos, os mais inteligentes, os menos...


Guardava sob sete chaves a imagem de professores dedicados, abnegados, e de pais e mães que se sacrificavam pelos filhos, e de garotos tentando entender o porquê da vida...


Mais de 30 anos depois, deparo outra vez com o mesmo livro. Já não é o mesmo, certamente, porque o leitor que eu fui mudou, e muito. Então, tanto a edição da Autêntica (2012) como a da Cosac Naify (2011) chegaram na hora da releitura. É hora de reler o livro. E reinterpretar quem sou.

sábado, 3 de março de 2012

Se estádio fosse escola...

Em minhas viagens ao sertão baiano, neste mês de fevereiro, soube da existência de um professor-compositor-escritor chamado Jorge Portugal. De suas ideias, lutas e palavras.


Um livro seu reúne artigos sobre educação, cultura, arte e política: Se escola fosse estádio e educação fosse copa... (Vento Leste, 2011). São textos combativos, otimistas, preocupados, temperados com o entusiasmo amadurecido de quem, além de dizer o que pensa, atua de acordo com o que diz.


Não pude (desta vez!) conhecer pessoalmente o professor Jorge Portugal, que é também parceiro musical de cantores como Caetano, Gil, Sergio Mendes e Jorge Aragão, e que faz televisão, e ministra palestras, e tem este site.


Mas a leitura tem este poder: agora eu já o conheço, sim, e sei que joga um bolão... na educação.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quanto custa ou quanto vale um livro?

No Metrô de São Paulo há máquinas que cospem livros. E aceitam qualquer valor. Então, por 2 reais, comprei hoje cedo o romance Fumaça, do escritor russo Ivan Turgueniev (1818-1883). Por apenas 2 reais. Livro novinho: 2 reais.


Foi publicado pela Ediouro (não há uma indicação precisa de data), provavelmente na década de 1980. Está esgotado, mas pode ser encontrado no Estante Virtual.

Num sebo carioca, por exemplo, existe um exemplar disponível, por 12 reais. Ao descrevê-lo, o vendedor avisa que o livro se encontra "em bom estado de conservação, edição brochura com sinais de uso, apresentando um pouco de amarelamento causado pela ação do tempo". Além dos 12 reais, acrescente-se o preço do frete, que pode variar entre 4 e 20 reais, dependendo da urgência do comprador.

Por 2 reais comprei Fumaça.


Não comecei a ler ainda (tantas leituras a fazer!). Sei, porém, que o valor deste livro é muito maior do que o preço estipulado por mim. O livro foi de graça. A valorização será uma decorrência da leitura.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ler e prazer

Para muitos, ler é sofrer. Associam leitura a tortura. Não se sentem livres perto dos livros. Outros sentem pavor. Outros experimentam o tédio. Uma pessoa me disse certa vez que tinha preguiça de virar as páginas de um livro...


A carioca Heloisa Seixas escreveu O prazer de ler (Casa da Palavra, 2011), livrinho de bolso (e apenas 78 páginas!), que oferece muito mais do que prometem suas reduzidas dimensões.


O prazer da leitura está associado a lugares (livrarias, sebos, bibliotecas...), a pessoas sempre vivas (todos os autores estão vivos), a diversas sensações e emoções: arrepios, entrega, estremecimento, saudade, expectativa, descoberta, generosidade, adoração, sonho, estranheza, susto...


O prazer nem sempre é leve ou ameno. Ler não é algo de somenos. O valor deste pequeno livro de Heloisa Seixas está em nos provocar uma grande vontade de ler mais.


Ler é descobrir — por mais curta que seja a vida, por mais limitados que sejam nossos poderes... ao virar as páginas de um livro estamos movendo mundos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Carnavaleitura!

Meu carnaval será uma folia de leitura. Vou ver o desfile das escolas literárias. Quero ler até cair. Batucar os enredos, sambar as metáforas!
Carnavaler. Carnavalivros. Carnavaleitura.
Meus livros estão ansiosos pelo Carnavaleitura aqui em casa!
Sou carnavaleitor há muitos carnavais!


O pandeiro da leitura. A cuíca da leitura. Batucando nos livros até o raiar do dia!
Os livros serão meus adereços neste Carnavaleitura.
Sou arlequim no Carnavaleitura.
Mesmo que sozinho, vou para o asfalto no Bloco da Leitura.
Todo livro é um carro alegórico!
No Carnavaleitura vestimos todas as fantasias.
Folião, vou folhear muitos livros neste Carnavaleitura.
Ler é fuzuê.
No Baile da Leitura todo mundo usando máscaras, a melhor forma de descobrir a própria identidade.
Carnavaleitura: na passarela, livros e personagens, novos enredos, batucada de ideias e imagens a noite toda.
Na Terça-feira Gorda, estar repleto de leituras.
E na Quarta-feira de Cinzas, páginas no chão, fantasias rasgadas, fim da folia.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A eterna insatisfação

Estes quadrinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá (na Folha de S.Paulo de hoje) me fizeram sentir um animal devorador de livros. Acrescentaria: "Não estou satisfeito com o que eu leio".
Que todos sejam vítimas dessa mansa loucura. Que todos tenham fome de ler. Uma fila de livros à espera da leitura, maior que as centopeias nas agências bancárias em dias de movimento. E apenas uma pessoa na caixa para atender à multidão: você.


Minha fila atual tem — geração superficial: o que a internet está fazendo com os nossos cérebros, de Nicholas Carr (Agir), Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas, de Michael Shermer (JSN Editora), As coisas, de Georges Perec (Cia. das Letras), Literatura e gerações, de Julián Marías (Liv. Duas Cidades), O pianista no bordel, de Juan Luis Cebrián (Objetiva), A cortina, de Milan Kundera (Cia. das Letras), Nietzsche, de Rüdiger Safranski (Geração Editorial)...


Não estou satisfeito com o que li, e muito menos com o que ainda não li. Insatisfeito com a quantidade. E com a qualidade. Por melhor que seja o livro... sempre se espera um livro melhor.


E a fila aumentando...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sem braços, sem pernas, e sem... limites

No ano passado, ganhei o livro Uma vida sem limites (Novo Conceito Editora, 2011), em cuja capa está o autor, o australiano Nick Vujicic, um belo rapaz, sem braços, sem pernas, com uma boa história para contar.


A sua história é uma história de superação. Suas vitórias são inspiradoras. Sua fé religiosa é sincera e, graças a essa fé, Nick multiplicou em si mesmo cem braços e cem pernas, para abraçar e percorrer o mundo.


Penso que existe a autoajuda desqualificada e a autoajuda qualificada. Aquela, a desqualificada, está baseada em manipulação, e em linguagem que hipnotiza. Já a qualificada, nasce de uma experiência existencial autêntica.


A qualidade de um livro desse gênero está em não gerar ilusões. Os braços e as pernas não existem. A imagem da capa é forte mas não é chocante. O pescoço de Nick é musculoso, pois ele o exercita para se mover com o máximo de autonomia possível. Ele nada muito bem, como podemos ver no vídeo abaixo.



Possui um SPC (Sistema Pessoal de Convicções), tem uma voz firme e convincente, um estilo. Tornou-se um empreendedor social. Neste ano de 2012, fará 30 anos de idade.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A busca da sabedoria no mundo do trabalho

A empresa que só se preocupa em acelerar a produtividade, gerar lucros, ganhar mercados, ultrapassar os concorrentes, colecionar conquistas... é uma empresa que corre muito... corre o sério risco de destruir e destruir-se.


O sucesso de um empreendimento humano não se reduz aos resultados do gerenciamento financeiro, ou das estratégias de marketing, ou das técnicas de venda. A verdadeira qualidade de uma empresa reside na qualidade das pessoas que nela trabalham e das pessoas que dela recebem algum tipo de serviço.


Esta qualidade humana será fonte de produtividade, lucros, mercados, conquistas... e um certo grau de felicidade.


Não são ideias tão absurdas. Estão presentes no livro Filosofia para executivos (Verus Editora, 2009), cujo subtítulo é "a sabedoria de grandes filósofos aplicada ao dia a dia empresarial". O autor é o alemão Andreas Drosdek, jornalista e consultor de empresas.


Um diferencial competitivo para as grandes empresas do nosso tempo é contratar (e ouvir) um Platão de terno e gravata. Em outras palavras: empresas bacanas buscam a sabedoria, ao passo que empresas toscas torcem o nariz quando alguém fala que é necessário pensar mais e correr menos.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Um 2012 de muitas e intensas leituras!

O grande Goethe escreveu que "todo vivente forma em torno de si uma atmosfera".*

Quando as pessoas se aproximam de nós (e nossos textos) sentem, portanto, os ventos das ideias, o ar puro dos argumentos, as tempestades das emoções, os relâmpagos da ansiedade, os trovões do medo, a escuridão da saudade, o crepúsculo das paixões, a aurora de novos projetos, as nuvens dos receios e a brisa do silêncio...


Somos pessoas com diferentes climas e estações, calorosas e frias, outonais e primaveris, chuvosas e áridas, por vezes sufocantes, por vezes amenas.
Que a nossa atmosfera pessoal, mesmo sob a pressão do trabalho e bombardeada pela previsão de catástrofes, seja sempre um espaço para a verdade e para a esperança!


Desejo a você um 2012 de muitas e intensas leituras!
___________________
Johann W. GOETHE, em Máximas e reflexões,  ponto  47. No original: “Alles Lebendige bildet eine Atmosphäre um sich her.”

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal e boas leituras!

Feliz Natal e boas leituras sempre, é o que desejo a quem passar por aqui. A charge de Laerte apareceu hoje, na Folha de S.Paulo:



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O reencontro com a leitura

O filme Minhas tardes com Margueritte (2010) é um canto ao reencontro com a leitura. O título em francês — La tête en friche — fala de uma cabeça baldia, uma cabeça sem cultivo e sem cultura, como terreno abandonado.

O terreno abandonado foi a inteligência do personagem quando menino. O professor de leitura massacrava o garoto em sala de aula. E a mãe massacrava o garoto em casa. O garoto Germain cresceu e se tornou um homem sem leitura, mas com capacidades de sobra. Gérard Depardieu está ótimo. Seus encontros literários com a velhinha de 95 anos são inesquecíveis. O filme é para rir e para chorar. Excelente chance didática para falar sobre leitura, para além da obrigatoriedade seca dos vestibulares e testes de múltipla desescolha...

A leitura em voz alta, a imaginação viva, o leitor como cocriador, a literatura como instrumento de autoconhecimento, como ocasião de encontro entre as pessoas — imperdível.

Ah, o filme é uma adaptação do romance, com esse título, de Marie-Sabine Roger (1957 - ), autora desconhecida no Brasil.

E um delicioso aperitivo:

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um rascunho todo mês

Todo mês recebo em casa rascunho, de Curitiba. A edição deste mês de dezembro traz um excelente artigo de Affonso Romano de Sant'Anna sobre o "excesso" de livros e a falta de leitores. O poeta observa como é diferente nosso hábito de ler do hábito de beber. O governo compra livros, mas é o cidadão que banca a cerveja.

E outras matérias no rascunho, sobre literatura infantil, poesia, tradução, mulheres e a profissão literária, um bom artigo de José Castello sobre Kerouac e Tchekhov, uma resenha sobre Marcelino Freire, enfim, 32 páginas de jornal dedicadas à literatura.

É curioso que a publicação ainda não adote as regras do novo Acordo Ortográfico, regras que ano que vem passam a valer 100%. Mas essa resistência revela, por outro lado, uma vontade de ir contra a corrente, uma rebeldia.

O site do Jornal Rascunho (ligado à Gazeta do Povo) vale a visita.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ecologia humana

O médico e escritor francês David Servan-Schreiber faleceu neste ano de 2011, vítima de câncer. É dele o livro Anticâncer (Fontanar, 2008), que projetou o autor, sobretudo nos Estados Unidos.

Todos têm um câncer dentro de si, à espreita. O estresse, a alimentação errada, a depressão, o ácido da ansiedade corroendo a alma deflagram a doença. David era vítima e herói, cobaia de si mesmo, pesquisador incansável das forças vivas e curativas que também nos habitam.

Escreveu anteriormente Curar (Sá Editora, 2004). Um livro de sabedoria e ciência. E de simplicidade, ainda que lidando com esse "monstro incompreensível" (Pascal) que cada ser humano é. David mistura investigação objetiva, autoconhecimento, confissão pessoal, abertura para o incompreensível. São condimentos importantes no amadurecimento.

E o câncer acabou vencendo? No último livro — Podemos dizer adeus mais de uma vez —, publicado pela Fontanar (2011), encontramos um ser humano, com todos os seus erros, inseguranças e uma imensa capacidade de amar. Venceu o ser humano. Venceu um modo de viver e pensar mais humano e humanizador. Venceu a ecologia humana.

A tradução do título faz refletir. No original, o título On peut se dire au revoir plusieurs fois não nos remete propriamente à noção do "adeus". O "revoir" da expressão francesa envolve um desejo de "rever" em breve a quem amamos. Quem vai partir diz um "até mais ver" e não um "adeus" definitivo.

Por outro lado, o "adeus" no título traduzido em português, além da rima adeus/vez, que soa bem, remete a... Deus. Muito discreto, o autor, com relação ao tema religioso (um ceticismo de fundo está presente), ouve-se porém uma música ao longe. Nota-se, enfim, que os preparativos para a partida de David têm um horizonte cheio de esperança para além do colapso físico.

sábado, 8 de outubro de 2011

Steve gostava de antever

No dia 5 de outubro, ao saber que Steve Jobs acabara de falecer, comprei O mundo segundo Steve Jobs (Campus, 2011). Essa coletânea de frases, a cargo de George Beahm, mostra como "funcionava" a cabeça deste visionário.

Suas palavras numa palestra para estudantes, em 2005, revelam sua visão a respeito da morte. Ele a via como uma invenção da vida. A vida é inovadora e renovadora. A consciência de que morrer é inevitável pode se tornar fonte de ideias e decisões.

O câncer raro não se manifestou à toa. Um homem incomum, obcecado pelo trabalho, intolerante com a preguiça, amante do ótimo, apaixonado pela qualidade, perseguidor da perfeição, atraído pelas mudanças revolucionárias, vivendo situações-limite, antevendo tudo... tinha de atrair um câncer raro. E câncer no pâncreas, que, do ponto de vista biológico e simbólico, é o órgão que libera toda a energia necessária para que possamos levar o irrealizado ao realizado.

A nossa força é a nossa fraqueza. Steve Jobs tinha muita energia, sabia disso e o dizia com palavras e ações. Muita energia, muita imaginação. Provenientes do pâncreas e do olhar. A certeza da morte é impulso para gastar todas as energias. Todas.

A morte "depura os sistemas, eliminando os antigos modelos obsoletos" (pág. 53). O pâncreas é indispensável à digestão, contribuindo para transformar alimentos em substâncias que darão energia ao corpo. A morte se faz vida. Mas a vida material se esgota. As ideias nascem, brilham, voam, e deixam para trás o corpo em que nasceram.

Steve Jobs não cultivava ilusões. Sabia, por exemplo, que o excesso de informações distribuído pela Web se perde por falta de visão e de leitura, por falta da prática do pensamento. Por isso, talvez, afirmou que trocaria toda a sua tecnologia "por uma tarde com Sócrates" (pág. 83), com quem travaria um diálogo cheio de perguntas e perplexidade.

domingo, 2 de outubro de 2011

Doses de Nietzsche

Entre o pensamento hermético e o diluído, entre o pensamento rarefeito e o banalizado, é possível encontrar reflexão profunda e alcançável, algo sutil e concreto.

É o caso de Nietzsche para estressados, de Allan Percy (Editora Sextante, 2011). Divulgação filosófica na esteira de Lou Marinoff, que recomendou doses de Platão em lugar de Prozac. Autoajuda qualificada.

São 99 doses de filosofia para que os preocupados, assustados, queixosos, ressentidos pensem melhor. Nada do outro mundo. Às vezes beirando o simplismo. Nietzsche talvez ficasse estressado lendo este livrinho. Mas talvez risse, quem sabe?

Afinal, na página 57, Allan Percy atribui a Nietzsche a certeza de que sorrir e estar bem-humorado são terapêuticos: regulam a pressão arterial, reforçam as defesas do corpo contra doenças, aliviam a fadiga, ajudam a relativizar os problemas...



domingo, 25 de setembro de 2011

Revistas que desbancam

Há revistas que desbancam, ultrapassam nossa expectativa, extrapolam. Vejo nas bancas duas revistas assim, nascentes, Metáfora e Quanta. Lançamentos da Editora Segmento.

Na Metáfora, um dos artigos mostra escritores que previram descobertas científicas: "A ciência dos escritores", assinado por Luiz Costa Pereira Jr.

Por exemplo, o escritor irlandês Jonatham Swift descreve em As viagens de Gulliver, no século XVIII, o mal de Alzheimer, que alguns biógrafos afirmam ter sido a doença que matou o próprio Swift.

E na Quanta, outro Luiz, o biólogo Luiz Caldeira Brant de Tolentino Neto, escreve "A superação das metáforas", analisando a relação entre linguagem e modelos de explicação científica.

As duas publicações começam juntas seu caminho. Paralelas, dialogam entre si. Que tenham longa vida entre um número crescente de leitores!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Um monge realista

Já li alguns livros do beneditino Anselm Grün, um monge alemão realista. Nasceu em 1945. É doutor em teologia e leitor perspicaz de Jung.

Conselheiro espiritual, palestrante, um dos melhores escritores católicos do nosso tempo, fala sobre autoconhecimento, solidão, sofrimento, morte, virtudes, sempre com uma serena alegria.

Não é leitura simples... mas não é complicada! Grün consegue traduzir sua experiência monástica para a realidade das ruas, das casas, dos nossos compromissos cotidianos. Seu conhecimento da mística tradicional do ocidente joga luzes desconcertantes sobre nossas preocupações, sobre os problemas de hoje.

Um de seus livros mais interessantes é O ser fragmentado: da cisão à integração (Idéias & Letras), lançado em 2006, e já na 6ª edição. Em que faz uma reflexão sobre os tipos de fragmentação que sofremos e os modos de, convivendo com a sombra, superar impasses e depressões.


Um trecho da página 66 — Lidar criativamente com a própria sombra torna-a frutífera. A criatividade tem a ver com confiança e liberdade. Aquele que quer, medrosamente, manter sua sombra presa, será dominado por ela. Aquele que souber administrá-la criativamente poderá mantê-la como fonte de inspiração e de espiritualidade.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ler é pouco... livro come-se!

O escritor espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) dizia que lê bem quem come o livro. Comer os livros de Unamuno é um banquete. Unamuno radical, dramático, etimológico, republicano, ensimesmado, angustiado e agostiniano, cristão e herege, acadêmico e ficcionista, cronicamente crítico, existencialista e existencialmente exilado, quixotesco e chicoteador das palavras. Paradoxal em seus monodiálogos!

De Unamuno acaba de ser publicado Como escrever um romance (Realizações Editora, 2011), com essas características todas e mais algumas. Um (im)puro Unamuno para comer em língua portuguesa. Considerações, invenções, confissões... Que ninguém espere um livro bem-comportado!

Um aperitivo só, retirado da página 127:

E eu quero lhe contar, leitor, como escrever um romance, como se escreve e há de escrever você mesmo seu próprio romance. O homem interior, o intra-homem, quando se torna leitor, contemplador, se é um ser vivente há de se tornar leitor, contemplador do personagem que ele está ao mesmo tempo lendo, escrevendo, criando — contemplador de sua própria obra.

sábado, 20 de agosto de 2011

Ateísmo teológico

Chamativo o interesse que os ateus sentem por Deus. Ninguém escreve sobre assunto que não o incomode ou atraia. Acabo de ler O debate sobre Deus: razão, fé e revolução, de Terry Eagleton (Nova Fronteira, 2011). Muito esclarecedor. Talvez até consiga despertar a fé religiosa (e/ou marxista) de alguns leitores.

É conhecida aquela brincadeira de Ferreira Gullar. Que ele entendeu e aderiu ao marxismo ao ler um livro escrito por um padre católico, em cuja primeira parte se expunha com clareza a doutrina marxista. A intenção do autor era condenar o pensamento de Marx na segunda parte do livro, mas antes cabia explicar o condenável. Gullar só leu a primeira parte... e aderiu ao marxismo graças à honestidade intelectual do padre.

Terry Eagleton, citando Tomás de Aquino, condena as críticas ateístas que não entendem o que há de revolucionário no cristianismo. E não foge ao diálogo inteligente com a teologia, para a qual migraram, diz ele, discussões animadas envolvendo temas relevantes e autores como Heidegger, Foucault, Deleuze e o próprio Marx...

Há passagens inspiradoras neste livro. Numa delas, Eagleton denuncia o otimismo patológico do que restou do sonho norte-americano: "o céu é o limite", "nunca diga nunca", "querer é poder", "nós podemos"... Isso, deduzo, em contraste com a fé e o otimismo cristãos, que nos ensinam a lidar com o despojamento, o fracasso e a morte.

Noutro momento, esse trecho (págs. 127-8):

O racionalista tende a confundir a tenacidade da fé (a fé de terceiros, pelo menos) com a teimosia irracional, em lugar de vê-la como o sinal de certa profundidade interior, que abrange a razão, mas também a transcende.

domingo, 14 de agosto de 2011

Leitura lenta... não sonolenta!

A pressa é uma doença. Pressionados pela pressa, olhamos a leitura, talvez, como perda de tempo. A pressa nos oferece a sensação de estarmos vivos. No entanto... quem lê ganha tempo, sim: tempo de experiência, tempo de aprofundamento, tempo de visão, tempo de compreensão. Leitura sem pressa é regresso ao essencial.

O prazer é uma dessas coisas essenciais. O prazer da leitura lenta, não sonolenta — leitura feita com o pensamento, polimento das ideias, das imagens, das palavras —, é prazer de perfazer, fazer bem, de cabo a rabo.

Corra até a livraria e compre Slow reading, de John Miedema, pela Editora Octavo (2011). Depois, desacelere, reflita durante a leitura. Não é preciso ser muuuuuito leeeento, quase paraaaaaando. Basta concentrar-se e respirar junto com o texto.

A capa da edição brasileira transmite serenidade — as duas irmãs e o livro. A cabeça inclinada da detrás, repousando sobre as mãos, que repousam sobre o espaldar da cadeira. A irmã sentada está mergulhada na página.

Já a capa da edição original radicaliza, lança mão da hipérbole e faz o elogio da lerdeza. Cada capa dá uma cara para o conteúdo.

A leitura lenta começa com a leitura da capa. Sem pressa, observe a capa, leia a capa, interprete-a. Então... entre no livro. Respire fundo. O livro é um mundo. No caso, temos aqui páginas inspiradoras, inteligentes, em que o autor dialoga com a Idade Mídia sem medo e sem rancores. Uma coisa não elimina a outra. Leitura vai, vem, vai bem, devagar e sempre!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Leminski — seus ensaios ansiosos

A Editora da Unicamp faz circular de novo textos excelentes de Paulo Leminski (1944-1989). São estes Ensaios e anseios crípticos (2011). Saíam em jornais e revistas. E quem os lia? Ou quem os lê? Leminski observava que escrever em português é viver no exílio.

Conta-se que o escritor espanhol Miguel de Unamuno aprendeu dinamarquês para ler Søren Kierkegaard no original. Que Marx estudou a língua russa para ler no original as obras de literatura que espelhavam as relações sociais naquele país. O escritor carioca Alberto Mussa estudou árabe para ler poesia pré-islâmica no original. Mas... e o português, quem vai correr atrás?

Leminski, no livro, lembra que Ezra Pound aprendeu português para ler Os Lusíadas no original. E que (segundo a lenda...) Erasmo de Rotterdam fez o mesmo para saborear Gil Vicente no original...

Quem adquirir esses anseios em forma de ensaios, leia a crônica "Os perigos da literatura", para descobrir doenças como o complexo de Castro Alves, o mal de Drummond, a síndrome de Borges, a paralisia Cabralina.

Literatura é doença das boas. Leminski traduzia. E acreditava ao mesmo tempo que toda tradução é uma impossibilidade. Seria esta a gripe Leminski?

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