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domingo, 22 de setembro de 2013

Recriar a criatividade

A educação que insiste na linearidade, na submissão e na homogeneização, nas avaliações padronizadas, nas aulas instrucionistas e nos discursos do pedagogês é uma educação fadada ao fracasso. Aliás, já fracassou.

Para renovar o sistema educacional (no mundo inteiro) é necessário repensar o pensamento, reimaginar as imagens, recriar a criatividade. Paradigmas e paradogmas merecem nossa crítica. Reinventaremos as condições de nossos alunos para que eles possam reinventar o nosso futuro?

Isso e muito mais no livro Libertando o poder criativo, de Ken Robinson, um dos mais influentes pensadores da área educacional hoje em dia, e sobre quem falei em outra postagem deste blog. O novo livro de Robinson (publicado entre nós em 2012) tem o selo da HSM Editora, com tradução de Rosemarie Ziegelmaier. 

O autor reúne algumas qualidades: clareza, precisão, bom humor, otimismo. Leitura revitalizante. Todos temos talentos inexplorados. O maior desperdício está nas salas de aula e também dentro de nossas casas. Engavetamos ou encarceramos capacidades imensas de criatividade.

Estar vivo é um privilégio. Poder desenvolver a nossa criatividade é uma urgência!

Entre os caminhos a ser trilhados, está o de conhecermos melhor nossas paixões e talentos pessoais, e saber colocá-los em jogo. Qual o seu pendor natural? Para onde se inclina o seu interesse, o seu olhar, a sua mente? Temos de fazer uma arqueologia para redescobrir os sonhos soterrados. Limpá-los da frustração.

Mas, com relação às crianças e jovens, trata-se de não enterrar suas aptidões. A curiosidade não deve ser amordaçada em nome do boletim escolar ou da disciplina. A propósito, a autodisciplina se faz quando fazemos aquilo que nos valoriza como seres criativos.

terça-feira, 20 de março de 2012

As palavras e seu território

Irandé Antunes
Gostei imensamente do título Território das palavras, recente publicação de Irandé Antunes (Parábola, 2012). A autora é nome importante da reflexão linguística no país. Só por isso já valeria a pena comprar seus livros. Mas o título Território das palavras evoca um lugar a ser conhecido... ou invadido. Comprei o livro atraído pelo título. (Depois, vi que essa expressão foi usada por Lya Luft, Nélida Piñón e outros amantes das palavras.)


Na terra dos homens, há o território das palavras. E na vida escolar, as palavras entram e saem. Muitas andam mais quietas (o Novo Acordo Ortográfico foi um choque para todos), outras são barulhentas, violentas, algumas são nojentas, outras correm contra o vento.


Estudar o idioma não é estudar somente, nem prioritariamente, a gramática normativa. A língua se arrasta, pula, faz careta, transforma-se, mente, mexe com nossa mente.


Se nas escolas estudássemos as palavras, invadindo-lhes o território, e tivéssemos com elas um corpo a corpo sem pudor, ao invés de ficar analisando (com bocejos de tédio) orações subordinadas, objetos diretos preposicionados, verbos irregulares...


Se tivéssemos a visão de artistas do verbo, como nas palavras de Graciliano Ramos citadas no livro de Irandé (leiamos abaixo, o texto está nas pgs. 91-2 de Território), nós, professores e alunos, leríamos mais e escreveríamos melhor. E esse "mais" e esse "melhor" não precisariam de exames ou provas para receber aprovação.


E agora, Graciliano: 


Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas penduram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever deveria fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.