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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ecologia humana

O médico e escritor francês David Servan-Schreiber faleceu neste ano de 2011, vítima de câncer. É dele o livro Anticâncer (Fontanar, 2008), que projetou o autor, sobretudo nos Estados Unidos.

Todos têm um câncer dentro de si, à espreita. O estresse, a alimentação errada, a depressão, o ácido da ansiedade corroendo a alma deflagram a doença. David era vítima e herói, cobaia de si mesmo, pesquisador incansável das forças vivas e curativas que também nos habitam.

Escreveu anteriormente Curar (Sá Editora, 2004). Um livro de sabedoria e ciência. E de simplicidade, ainda que lidando com esse "monstro incompreensível" (Pascal) que cada ser humano é. David mistura investigação objetiva, autoconhecimento, confissão pessoal, abertura para o incompreensível. São condimentos importantes no amadurecimento.

E o câncer acabou vencendo? No último livro — Podemos dizer adeus mais de uma vez —, publicado pela Fontanar (2011), encontramos um ser humano, com todos os seus erros, inseguranças e uma imensa capacidade de amar. Venceu o ser humano. Venceu um modo de viver e pensar mais humano e humanizador. Venceu a ecologia humana.

A tradução do título faz refletir. No original, o título On peut se dire au revoir plusieurs fois não nos remete propriamente à noção do "adeus". O "revoir" da expressão francesa envolve um desejo de "rever" em breve a quem amamos. Quem vai partir diz um "até mais ver" e não um "adeus" definitivo.

Por outro lado, o "adeus" no título traduzido em português, além da rima adeus/vez, que soa bem, remete a... Deus. Muito discreto, o autor, com relação ao tema religioso (um ceticismo de fundo está presente), ouve-se porém uma música ao longe. Nota-se, enfim, que os preparativos para a partida de David têm um horizonte cheio de esperança para além do colapso físico.

sábado, 8 de outubro de 2011

Steve gostava de antever

No dia 5 de outubro, ao saber que Steve Jobs acabara de falecer, comprei O mundo segundo Steve Jobs (Campus, 2011). Essa coletânea de frases, a cargo de George Beahm, mostra como "funcionava" a cabeça deste visionário.

Suas palavras numa palestra para estudantes, em 2005, revelam sua visão a respeito da morte. Ele a via como uma invenção da vida. A vida é inovadora e renovadora. A consciência de que morrer é inevitável pode se tornar fonte de ideias e decisões.

O câncer raro não se manifestou à toa. Um homem incomum, obcecado pelo trabalho, intolerante com a preguiça, amante do ótimo, apaixonado pela qualidade, perseguidor da perfeição, atraído pelas mudanças revolucionárias, vivendo situações-limite, antevendo tudo... tinha de atrair um câncer raro. E câncer no pâncreas, que, do ponto de vista biológico e simbólico, é o órgão que libera toda a energia necessária para que possamos levar o irrealizado ao realizado.

A nossa força é a nossa fraqueza. Steve Jobs tinha muita energia, sabia disso e o dizia com palavras e ações. Muita energia, muita imaginação. Provenientes do pâncreas e do olhar. A certeza da morte é impulso para gastar todas as energias. Todas.

A morte "depura os sistemas, eliminando os antigos modelos obsoletos" (pág. 53). O pâncreas é indispensável à digestão, contribuindo para transformar alimentos em substâncias que darão energia ao corpo. A morte se faz vida. Mas a vida material se esgota. As ideias nascem, brilham, voam, e deixam para trás o corpo em que nasceram.

Steve Jobs não cultivava ilusões. Sabia, por exemplo, que o excesso de informações distribuído pela Web se perde por falta de visão e de leitura, por falta da prática do pensamento. Por isso, talvez, afirmou que trocaria toda a sua tecnologia "por uma tarde com Sócrates" (pág. 83), com quem travaria um diálogo cheio de perguntas e perplexidade.