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terça-feira, 3 de julho de 2012

Sem filosofia... nem pensar!

Vou à livraria e a vejo invadida pela filosofia. Pela divulgação de filosofia, sendo mais preciso.

Com capa amarela "cheguei", desde 2011, está em evidência O livro da filosofia, da Editora Globo. Um livro de vários autores: Will Buckingham, Peter King e outros.

Como de praxe, no início era Tales, nascido em Mileto no século VII a.C. Mas não se restringe aos gregos. Menciona Confúcio e Buda. Como também é de praxe, o período medieval recebe modesta atenção, embora  devamos aplaudir o merecido destaque ao grande Tomás de Aquino.

A partir do século XVI, o desfile tradicional: Maquiavel, Bacon, Descartes, Hobbes, Pascal, Espinosa, Locke, Leibniz, Voltaire, Kant, Hegel, Kierkegaard, Marx, William James, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Popper, Sartre, Camus, Wittgenstein, Carnap, Gadamer, Adorno, Levinas...

Um detalhe importante neste livro é a inclusão de nomes mais recentes e não tão conhecidos. São eles: Arne Naess (filósofo norueguês), Mary Midgley (pensadora britânica), Paul Feyerabend (austríaco), Thomas Kuhn, John Rawls e Richard Rorty (norte-americanos), Derrida e Lyotard (franceses), Julia Kristeva (filósofa búlgara), Henry Oruka (filósofo queniano) e Slavoj Žižek (esloveno).

A capa amarelona, com desenhos e frases que sintetizam vários sistemas de pensamento, nos convida a entrar. E, lá dentro, páginas vermelhas, azuis, verdes, diagramação boa, viva, muita ilustração, e as informações essenciais bem explicadas.

Mas a invasão filosófica, ou de iniciação filosófica, continua. Com capas atraentes, em busca de um público que já superou os livros de autoajuda.

Neste primeiro semestre de 2012, vários títulos chegaram e são fáceis de achar... e ler.

Leya lança Filosofia em 60 segundos, de Andrew Pessin, uma vez que o tempo é tão curto, e estamos tão apressados. A Civilização Brasileira lança Casos filosóficos, de Martin Cohen, mostrando a realidade comezinha, tantas vezes mesquinha, por trás dos grandes textos. A Difel lança Um passeio pela antiguidade: na companhia de Sócrates, Epicuro, Sêneca e outros pensadores, de Roger-Pol Droit, palatável. Desse mesmo autor, temos Filosofia em cinco lições, pela Nova Fronteira.


São textos para despertar o ser pensante que há em você, prezada leitora, estimado leitor! São aperitivos para maiores banquetes. Iscas para outros petiscos. Fast-food para posteriores manjares.

Se tiver 60 segundos, leia. Se quiser cinco lições, são apenas cinco. Se quiser passear, pegue sua bicicleta reflexiva. Se quiser ouvir alguns casos, senta... que lá vem filosofia! E, sem filosofia, nem pensar!

sábado, 20 de agosto de 2011

Ateísmo teológico

Chamativo o interesse que os ateus sentem por Deus. Ninguém escreve sobre assunto que não o incomode ou atraia. Acabo de ler O debate sobre Deus: razão, fé e revolução, de Terry Eagleton (Nova Fronteira, 2011). Muito esclarecedor. Talvez até consiga despertar a fé religiosa (e/ou marxista) de alguns leitores.

É conhecida aquela brincadeira de Ferreira Gullar. Que ele entendeu e aderiu ao marxismo ao ler um livro escrito por um padre católico, em cuja primeira parte se expunha com clareza a doutrina marxista. A intenção do autor era condenar o pensamento de Marx na segunda parte do livro, mas antes cabia explicar o condenável. Gullar só leu a primeira parte... e aderiu ao marxismo graças à honestidade intelectual do padre.

Terry Eagleton, citando Tomás de Aquino, condena as críticas ateístas que não entendem o que há de revolucionário no cristianismo. E não foge ao diálogo inteligente com a teologia, para a qual migraram, diz ele, discussões animadas envolvendo temas relevantes e autores como Heidegger, Foucault, Deleuze e o próprio Marx...

Há passagens inspiradoras neste livro. Numa delas, Eagleton denuncia o otimismo patológico do que restou do sonho norte-americano: "o céu é o limite", "nunca diga nunca", "querer é poder", "nós podemos"... Isso, deduzo, em contraste com a fé e o otimismo cristãos, que nos ensinam a lidar com o despojamento, o fracasso e a morte.

Noutro momento, esse trecho (págs. 127-8):

O racionalista tende a confundir a tenacidade da fé (a fé de terceiros, pelo menos) com a teimosia irracional, em lugar de vê-la como o sinal de certa profundidade interior, que abrange a razão, mas também a transcende.